Índia: Que desenvolvimento, e para quem?

O que é constitui um país? Basicamente, a sua terra e o seu povo.

A Índia é um país vasto com mais de mil milhões de habitantes. O desenvolvimento destes dois fatores, a terra e o povo, significaria o desenvolvimento do nosso país. O retardamento destes dois fatores implica o seu retrocesso. Destes fatores, o último, o povo, é o principal, mas o seu desenvolvimento nunca pode ocorrer à custa do meio ambiente. Os dois podem e devem desenvolver-se em sintonia numa inter-relação próxima e homogênea.

Quando falo do povo, quero dizer o essencial dos recursos humanos do nosso país. Pretendemos um desenvolvimento não apenas para alguns, mas para a vasta maioria. Porque é essa vasta maioria que realmente constitui este país, a Índia. O seu desenvolvimento é o desenvolvimento da Índia. E quando falo da terra, uso o termo num sentido genérico, querendo dizer todos os recursos naturais do nosso país – a terra e a fertilidade do seu solo, as florestas, a água, as riquezas do subsolo, o ar, etc., etc. Em suma, o meio ambiente.

Portanto, os recursos humanos e os recursos naturais são o que basicamente constituem o nosso país. Este tem sido o entendimento desde tempos imemoriais, apesar dos conceitos promovidos hoje em dia do crescimento do Produto Interno Bruto [PIB], do desenvolvimento high-tech, etc. como indicadores do desenvolvimento. Mesmo no tempo dos Vedas já se dizia:

A nossa pátria
Que é a rainha do Senhor resplandecente
Que carrega no seu seio
O Fogo Divino e o ouro reluzente
Que fornece proteção a todos
Que está firmemente estabelecido
E que abriga todos os seres vivos
No seu confortável regaço
Que está repleto de riquezas
Possa dar-nos
Abundante riqueza e sabedoria

Atharva Veda 12.1.6

Portanto, a terra e a natureza devem fornecer toda a riqueza e sabedoria ou conhecimento abundantes para desenvolver o crescimento global dos nossos recursos humanos.

Quando falo em desenvolvimento dos recursos humanos, não vejo o desenvolvimento em termos meramente econômicos, mas também os seus níveis espirituais e culturais. Não há dúvida nenhuma que as pessoas devem satisfazer as suas necessidades básicas da vida – alimentação, água e vestuário, habitação e educação. Mas este é o ponto de partida para o seu florescimento integral enquanto seres humanos. Os animais também obtêm alimentos e água (é uma tragédia que tenhamos ficado reduzidos a algo pior que a existência animal), mas é apenas com o florescimento da individualidade de todos os seres humanos, através do seu desenvolvimento espiritual, cultural e político-social que chegamos a um verdadeiro desenvolvimento dos recursos humanos do nosso país. E por espiritualidade não quero dizer religião (embora também possa estar incluída, com base nas preferências de cada pessoa), mas sim um conjunto de valores que permite o melhor das interações cooperativas entre as pessoas com base no respeito mútuo e no entendimento – e não na superioridade/inferioridade, na hierarquia, na coerção e nas castas, etc.

A essência humana deve ter a possibilidade de crescer e crescer, na ascendente brisa fresca da liberdade genuína. Tem que desabrochar como as flores da primavera na sua plena floração. Mas, uma condição prévia para este tipo de desenvolvimento é a eliminação da pobreza, da fome e da ignorância. Um faminto, um doente, uma pessoa enfraquecida apenas anseia pela sua próxima refeição. Apenas quando já não precisa de se preocupar com a satisfação das suas necessidades básicas é que pode virar-se para o crescimento e o desenvolvimento espiritual, cultural e em todas as outras formas. É verdade, como diz a Bíblia, que «o Homem não vive só de pão», mas o seu pão é uma condição prévia para um maior desenvolvimento.

Portanto, o desenvolvimento da maioria do nosso povo nessa direção constituirá o principal aspecto do desenvolvimento do país. O segundo aspecto do desenvolvimento do país, e relacionado com este, são as suas terras, a água, as florestas e todas as riquezas naturais do país. Isto implica desenvolvê-las numa direção que tenha em conta os melhores interesses ao serviço das vastas massas da Índia. Com estes conceitos de desenvolvimento, voltemo-nos agora para os males que o nosso país enfrenta.

Os problemas a ultrapassar

A análise econômica governamental 2009-10, apresentada na véspera do orçamento, comentava corretamente: «Uma nação interessada num crescimento global vê esse mesmo crescimento de uma forma diferente que depende de os ganhos do crescimento serem recolhidos sobretudo por um pequeno segmento ou amplamente partilhados pela população. Este último caso merece ser celebrado, mas o primeiro não. Por outras palavras, o crescimento não deve ser tratado como um fim em si mesmo, mas sim como um instrumento para a distribuição da prosperidade para todos.»(1)

De seguida, a análise econômica mostra como se deu o crescimento global no país, mostrando o crescimento do PIB per capita e da despesa de consumo per capita do país(2). Mas, estes números per capita não dão uma imagem precisa da maioria da população, já que faz a média das despesas e da riqueza dos bilionários e dos pobres e coloca-as no mesmo patamar. Mas a realidade é algo diferente.

Todos os indicadores mostram de fato uma situação aterradora no país, que é totalmente o contrário da imagem acima mencionada e da impressão criada pelo governo e pelos mídia que retratam o desenvolvimento com base em elevadas taxas de crescimento, na rápida ascensão dos índices das bolsas de valores, nas grandes reservas de divisas estrangeiras, etc.

Primeiro, irei analisar alguns índices e depois voltar-me-ei para a realidade do terreno. Praticamente todos os índices comparativos colocam a Índia numa situação pior que a maioria da África subsaariana – a região menos desenvolvida do mundo. A Índia está em 134º lugar (num total de 180 países) no índice de desenvolvimento humano da ONU. Está mesmo atrás de países como o Laos e o Butão. Na realidade, também já estava em 134º em 1994. Portanto, não houve nenhuma melhoria.

O Banco Mundial dá mesmo uma imagem ainda mais patética, ordenando a Índia como 143º país do mundo com base no PIB per capita. Ironicamente, o Presidente da Índia, numa recente visita ao Laos, anunciou grandiosamente um empréstimo de 15 milhões de dólares, dizendo que a Índia irá continuar a ajudar o Laos para o retirar da categoria de país menos desenvolvido.

No Índice Global da Fome, a Índia fica no 66º lugar, entre 88 países. E se virmos o recém-criado Índice Multidimensional de Pobreza (IMP) da UNDP, que mede de uma forma mais ampla a pobreza com base nos rendimentos, na saúde, na educação, etc., descobrimos uma situação ainda pior. A Índia, diz a UNDP, tem 650 milhões de pessoas que são pobres no sentido do IMP, o que quer dizer 55 por cento da população. Ainda pior, oito estados da Índia (Bihar, Chhattisgarh, Jharkhand, Madhya Pradesh, Orissa, Rajasthan, Uttar Pradesh e Bengala Ocidental) têm mais pobres que os números apresentados nos 26 países mais pobres de África.(3)

Como se isto não fosse suficientemente mau, a situação das nossas crianças, mulheres e velhos está entre as piores do mundo. Segundo a UNICEF, se excetuarmos a Etiópia, a Índia tem a mais alta percentagem de crianças desnutridas com menos de 5 anos de idade. Em 2008, a percentagem de crianças desnutridas era 51 por cento na Etiópia, 48 por cento na Índia, 46 por cento no Congo, 44 por cento na Tanzânia, 43 por cento no Bangladesh, 42 por cento no Paquistão, 41 por cento na Nigéria, 37 por cento na Indonésia e 15 por cento na China. A Índia tem metade das crianças desnutridas do mundo e mais de metade das crianças na Índia têm um peso inferior ao normal.

A campanha Direito à Alimentação (RFC, na sigla em inglês) diz que dois terços das nossas mulheres estão anêmicas, cerca de um terço da população rural adulta tem um baixo índice de peso corporal e as taxas de subalimentação são mais elevadas que nalguns dos países de África mais vulneráveis ao conflito.

Como se isto já não fosse suficientemente mau, a Índia está no fundo do recentemente compilado «índice qualidade de morte».(4) Este novo estudo sobre cuidados de fim da vida analisa de perto a qualidade de vida e os cuidados disponibilizados aos velhos e aos agonizantes nas economias desenvolvidas e emergentes. Muitos dos países que se tornaram independentes depois da Índia têm um índice de qualidade de morte que é o dobro do da Índia. Por isso, se olharmos para as nossas crianças, mulheres, idosos ou mesmo para o grosso da nossa população, houve muito pouco desenvolvimento nestes 63 anos de independência. Em muitas aspectos, a situação das pessoas é muito pior que durante o domínio britânico.

Agora, se olharmos para a realidade no terreno, a situação é ainda mais deprimente. Dois estudos – um do Banco Asiático para o Desenvolvimento e outro da Comissão Nacional para as Empresas do Sector Não Organizado – colocam o número de pessoas afetadas pela pobreza em mais de 75 por cento da população. O segundo estudo diz que 77 por cento da população da Índia (ou seja 836 milhões de pessoas) vivem com 20 rupias ou menos (menos de um dólar norte-americano), por dia. E isto numa altura em que a inflação alimentar chega aos 20 por cento. Isto também é confirmado por dados da NSSO que mostram que 77 por cento da população rural consume menos que o valor recomendado de 2400 calorias mínimas diárias. Na realidade, a percentagem subiu em relação aos 69 por cento de 1993.(5)

Se olharmos para a situação de outros ângulos, o panorama é horrendo. O consumo per capita de gramíneas alimentares caiu de 177 quilos em 1991 para 151 kg em 1998. Desde então, já desceu ainda mais – compare-se isto com os 182 kgs registrados nos PMDs (Países Menos Desenvolvidos) e com os 196 kg em África. A média mundial de consumo de cereais é 314 kg (os cereais constituem 9/10 das gramíneas alimentares). Isto inclui tanto o consumo direto como o indirecto (o indirecto são os cereais usados para alimentar os animais que são depois consumidos pelo homem). Portanto, os indianos consomem metade da média mundial e ainda menos que os países mais pobres no mundo.

A extensão do empobrecimento rural pode ser estimada pelo fato de mais de 200 mil camponeses terem cometido suicídio entre 1997 e 2008. Este fenômeno nunca tinha sido visto antes no nosso país e é o resultado das políticas enviesadas do governo para transformar a agricultura numa máquina de produção de lucro para as empresas de cereais, de fertilizantes e de pesticidas. No estado do Maharashtra (que tem a mais elevada taxa de suicídios) os números estão a aumentar. Dos 8 por dia entre 1997 e 2002, aumentou para 11 por dia entre 2003 e 2008.

Se olharmos tanto para as zonas rurais como para as urbanas, não vemos senão um aumento do empobrecimento. Nas zonas rurais, vemos que 85 por cento (cerca de 600 milhões de pessoas) da comunidade agrícola trabalha em menos de cinco acres de terra, dos quais 60 por cento (ou seja, 360 milhões de pessoas) não têm água.(6) De uma forma semelhante, mais de 90 milhões de pessoas vivem nos bairros de lata urbanos, o que representa um aumento de 23 por cento em relação a 2001.(7)

O grosso destes 450 milhões de pessoas vive em condições subumanas. Depois, vemos que a todos os níveis o emprego regular está a diminuir pelo que cada vez mais pessoas têm que lidar com uma existência insegura com trabalhos a contrato. Mesmo os empregos públicos são escassos. Por exemplo, em apenas oito anos, entre 2002 e 2009, os PSUs do governo central diminuíram a sua mão-de-obra em cerca de 25 por cento, de 20 milhões de empregados para 15 milhões.

Ainda pior, ao nível da higiene e dos cuidados de saúde, mesmo a capital do país, Deli, está infestada de doenças. A malária está a chegar a lugares que nunca antes tinham sido afetado pela doença. Como a Índia tem um dos piores sistemas públicos de cuidados de saúde do mundo, grandes segmentos da população estão a ficar extenuados. Uma grande parte dos rendimentos familiares vai agora para as doenças – medicamentos caros, honorários dos médicos e encargos com as patologias.

Neste momento, os governos dos estados gastam uns meros 0,5 por cento do PIB em cuidados de saúde e higiene, em comparação com 1 por cento em 1970. A ONU diz que na Índia morrem anualmente 100 mil pessoas devido a doenças relacionadas com a água. Em 2008, morreram outras 120 mil devido a acidentes rodoviários, tendo ficado feridas 520 mil.

Portanto, se olharmos para os recursos humanos do país, vemos que há poucos desenvolvimentos na satisfação das suas mais básicas necessidades, já para não falar ao nível espiritual e cultural. Quem está pior são os que estão no fundo da hierarquia das castas e nas minorias que, além disso, têm que enfrentar uma humilhação diária devido ao seu estatuto. Já para não falar no florescimento da sua individualidade, em que o seu próprio auto-respeito é esmagado a cada passo. Com a ascensão do Hindutva [fundamentalismo hindu], as discriminações de casta e comunais têm crescido de fato, destruindo qualquer esperança de uma verdadeira emancipação espiritual.

Mesmo entre as classes médias e os mais abastados, o consumismo e a corrupção a todos os níveis da sociedade e o fanatismo religioso têm destruído o tecido moral do país. O estado dos nossos recursos humanos é este; o estado dos nossos recursos naturais é ainda mais devastador. O saque das zonas rurais e do meio ambiente está bem documentado. Há florestas que foram destruídas, juntamente com toda a vida selvagem que existia dentro delas; há rios que foram transformados em esgotos glorificados e aqüíferos subterrâneos que foram drenados e terrenos da melhor qualidade que foram devastados por fertilizantes e inseticida.

Além do que a máfia da madeira e as fábricas de papel destruíram, houve cerca de 160 mil hectares de terrenos florestais que foram desviados para a extração mineira. A taxa de desflorestação tem aumentado rapidamente. Enquanto no período 1980-97 houve 19 projetos mineiros por ano que receberam licenças florestais, isto aumentou para 216 por ano no período 1998-2005. Só a extração de minério de ferro consumiu 77 milhões de toneladas de água, apenas no ano 2005-06. Com as salvaguardas nominais da poluição, a extração dos principais minérios gerou 1,84 toneladas de desperdícios em apenas um ano, 2005-06, a maior parte dos quais eram tóxicos na natureza.

A desflorestação e a erosão das terras levaram a uma pobre retenção das águas, de que resultaram secas e inundações regulares e que reduziram o reabastecimento dos aqüíferos subterrâneos. A Índia depende agora desses aqüíferos subterrâneos para as suas necessidades, e não das água superficiais. Hoje em dia, 60 por cento da agricultura irrigada e 80 por cento dos abastecimentos rurais/urbanos dependem das águas terrestres. Segundo um relatório do Banco Mundial, 29 por cento das massas subterrâneas de água da Índia são críticas. Isto irá aumentar para 60 por cento em 2025. Enquanto as indústrias e as minas se banqueteiam com toneladas de água, a disponibilidade per capita diminuiu de 5000 metros cúbicos em 1991 para 1600 metros cúbicos em 2001. A devastação global é tal que é ampliada por catástrofes como a de Bhopal e por projeto como o ALGAH (no Gujarate).

Qualquer desenvolvimento tem que envolver uma sistemática reflorestação, mas não de monocultura, o rejuvenescimento dos solos e das fontes de água e projetos industriais/mineiros não poluentes. A Índia é um país muito rico em recursos naturais. Se a nossa enorme força de trabalho for aplicada neles, poderemos criar maravilhas em apenas alguns anos.

Desenvolvimento para quem?

Embora o governo tenha uma abordagem de longo prazo para o desenvolvimento da indústria e das grandes empresas, não tem uma abordagem semelhante para o desenvolvimento das massas do nosso país. Na abordagem a este desenvolvimento, tem medidas de ajuda à pobreza de apagar fogos a curto prazo. Esta alteração de políticas surgiu após o 4º plano, em que as verbas atribuídas a temas como o desenvolvimento rural foram drasticamente cortadas.(8)

Assim, vemos enormes investimentos em portos, aeroportos, vias rápidas, conectividade móvel/internet, etc., que beneficiam sobretudo a indústria e as empresas. Por outro lado, pouco se investe na reflorestação, gestão das bacias hidrográficas, saúde, educação, etc., que beneficiariam as massas. Mas o governo investe de fato em medidas de ajuda à pobreza que não produzem nada de duradouro ou tangível. Milhares de milhões de rupias desaparecem nesse buraco negro, dos quais só uma pequena fracção chega ao povo. Aqui, não estou a falar de corrupção – esse é o segundo ponto – estou a falar da própria abordagem ao bem-estar do povo. Devemos continuar a dar esmolas às pessoas, ano após ano, ou deveríamos criar as bases para elas ganharem o seu sustento, desta forma também criando algo de tangível para o país? Este é o ponto em discussão.

Mas o essencial dos esquemas do governo são meras dádivas. Nenhum desses projeto está orientado para criar algo de tangível que possa beneficiar o país a longo prazo. Nem para beneficiar as pessoas sob a forma de fornecimento de irrigação, empregos, cuidados de saúde, etc. E a somar a isto está o segundo ponto: a gigantesca corrupção que torna mesmo estes esquemas não funcionais. Tomemos por exemplo o muito apregoado NREGA para fornecer aos pobres empregos de 100 dias e para o qual foram orçamentados cerca de 100 milhões de dólares.(9)

Segundo Mani Shankar Aiyer(10), o NREGA envolveu apenas 32,6 por cento das famílias do estado de Tripura. No Uttar Pradesh e no Madhya Pradesh envolveu apenas 14 por cento, no Chhatisgarh e no Jharkhand 8 por cento, enquanto no Orissa e no Uttaranchal foram 6 por cento. Portanto, para onde foi todo aquele dinheiro?

Em 2004, a própria comissão de planejamento admitiu que 58 por cento dos cereais subsidiados não tinham chegado às famílias do BPL [um outro esquema de dádivas] e que 36 por cento tinham sido vendidos no mercado negro.

A insensibilidade do governo quanto ao bem-estar do povo pode ser vista no fato de que nem sequer passadas tantas décadas o governo desenvolveu as infra-estruturas para armazenar adequadamente os cereais que ele próprio compra. Em vez de construir silos, que é o método estabelecido em todo o mundo, despeja os seus cereais em armazéns e mesmo ao ar livre. Enquanto centenas de milhares de pessoas neste país passam fome, quase 20 milhões de toneladas de alimentos são entregues aos fungos e aos roedores. Isto corresponde a 10 por cento da produção anual do país.

Contudo, por outro lado, as políticas de desenvolvimento expandiram o número de super-ricos, em que 100 dos mais ricos têm um valor líquido de 300 mil milhões de dólares, 25 por cento do PIB da Índia. O número de bilionários tem crescido à taxa mais rápida do mundo. Saltou de 27 em 2008, para 52 em 2009 e 69 em 2010. Em 2009 havia 3134 executivos que ganhavam mais de 220 mil dólares por ano e 1000 que ganhavam mais de 2,5 milhões por ano. E isto não inclui os rendimentos obscuros [não declarados e livres de impostos] que correspondem a 40-50 por cento do PIB.

Estes gigantescos rendimentos estão distribuídos entre as grandes famílias empresariais, os principais políticos e os burocratas e quantias menores escorrem para centenas de milhares de pessoas, corrompendo no seu rasto todo o tecido moral da nossa sociedade. Além disso, os parlamentares deram a si próprios um aumento de 300 por cento dos seus rendimentos (incluindo os benefícios) de mais de 90 mil dólares por ano. Portanto, o pouco desenvolvimento que está a ocorrer neste país alimenta um minúsculo microcosmo da sociedade e não ajuda muito a construir o país, a sua terra e o seu povo. E é isto que requer medidas corretivas.

Artigo reproduzido da publicação revolucionária indiana People's March. Tradução Serviço Noticioso Um mundo A Ganhar.

Notas:

(1) Análise Econômica da Índia, 2009-1010.
(2) Análise Econômica 2009-10, ver págs. 22-23.
(3) The Economist, citado pelo Indian Express, 29 de Setembro de 2010.
(4) Outlook, 29 de Agosto de 2010.
(5) Utsa Patnaik, citado em Frontline, 12 de Março de 2010. [
(6) Tehelka, 27 de Março de 2010.
(7) Times of India, 4 de Setembro de 2010. [
(8) Segundo Patnaik, o investimento no desenvolvimento rural foi de 14,5 por cento do PIB no período 1985-90 e caiu para 8 por cento do PIB nos anos 90 e para 5-6 por cento nos anos 2000.
(9) Análise Econômica 2009-2010, pág. 227.
(10) Asian Age, 13 de Setembro de 2010.

Kassan 26/07/2011








Eu nunca me apeguei suas grifes, não vivo a vida de ninguém, eu vejo o que fiz
Vejo patifes no poder, apoiam o que títeres...
respeito às horríveis coisas que escuto
Por isso trago neurônios armados com rifles!
Um exército em 23 pares do cromossomos
Por um minuto parem, e se perguntem: Quem somos?

Não queremos ser tratados como animais,
então por que agimos como se ainda tivessemos donos?!

Obedecendo a quem monopoliza tronos
Vendo nossos direitos como se fossem um bônus
Brasileiros não desistem, mais também não insistem...

Já não somos metade do que fomos
Entre Henne, Dreher ou Dhomus*, guerreiros dormem
Embriagados pelo seu ego, seus trilhos somem
Quanto mais consomem

Já vi homens se tornarem covardes, mas acho impossível um covarde se tornar um homem
Morou, rapaz?
Num lugar onde vive mais quem fala menos, e muito menos quem fala mais


Pelas vielas
Disseram que as ruas me olhariam feio, e que eu deveria olhar ainda mais feio pra elas
Esse foi meu incentivo
Fazer tudo pela senhora mãe! Por que agora eu entendo
Não pude escolher entre lutar ou não
Mais já que to aqui, eu sei muito bem o lado que eu defendo

24 horas por dia
Atrás das linhas inimigas, território de quem me repudia
Eu tinha que ter fé
Por que ao contrário dos filmes, aqui eles dão mais do que tiro no pé!

(plew! plew!) É o momento do Bum!
Mudar o quadro onde o recentimento é comum
Trouxe mensagem e usei sentimento como um..
Colete pra minha mente, por que me sinto dentro do DOOM
Só pode ser um jogo
Criadores brincam com criaturas, crianças brincam com fogo
E alta tensão...

Armas são brinquedos e brinquedos podem virar armas, dependendo da intenção
Irmão, a rua tem seu código
Muitos fugiram, muitos voltaram esperando a herança do pródigo

Entre jaquetas e capuzes, 2pac's e Papoose's
Mangueiras e jacuzes, cada um com suas cruzes
Luzes na avenida guiam o motorista melhor
A metrópole anuncia tentações num outdoor
A vida é uma eterna busca malandro
Só que a maioria dos vivos nem sabe o que tá procurando

A gente fala, a gente anda, a gente escuta, a gente manda
A gente luta, a gente sangra, a gente sente medo quando..
A gente erra, a gente ganha, a gente ferra, a gente apanha
A gente enterra, a gente estranha, nossa própria gente quando...

A gente entra, a gente sai, a gente tenta, a gente vai
A gente enfrenta, a gente cai, por que a gente é só gente
Que não aprende, a gente lota o que não rende
A gente só tá pela gente, a gente vota e logo se arrepende!

Presos nessa rede de corrupção
De quadra em quadra, vendedores de ilusão
Te enquadram em cada passo seu nesse mundão
Se não poluem a mente, poluem o seu pulmão..
Vejo cérberos* sem diposição
Com força, mais com cérebros em decomposição

Explodo egos se egos tornam o coração..
Cego, resgato cérebros em cada composição
E qual a sua posição? Perante esse mundo de ganância
Comércio de substâncias ilícitas, ambulância

Milícia, ou militância?
Consegue enxergar que o que separa os homens é mais que distância!?
Passe um dia enxergando através dos meus olhos

E entenderá cada tema que eu abordo
Nesse mar de gente eu sou mais um
Aqui quem fala é Rashid, e esse é o meu Dário de Bordo!
Bum!!!...


(Rashid)

Kassan 25/07/2011



Autodeterminação ou separatismo?

Delimitar um espaço físico, concentrar um determinado contingente de indivíduos que se associem por possuírem características em comum cor de pele, religião, ascendência genética etc... É dar a estes mesmos indivíduos um suposto ''governo'' seria o suficiente para significar uma efetiva autodeterminação? É necessário afirmar que NÃO!

Isso e separatismo sem conceituação de princípios. Um exemplo que não permite negar essa afirmação e do caso do recém criado ''Sudão do Sul''.

Depois da intensa guerra civil que assolou o maior país da África, algo que causou uma crise humanitária que incluiu genocídio e limpeza étnica. A dita responsável ''comunidade internacional'' esperou o cruento desfecho para só após isso agir, sobre uma postura de nobre ação "humanitária" nada que não seja surpreendente, bastando se lembrar de Uganda. Foi esperado o sangue ser derramado, para se assim ser tomando uma providência. Isso serve para reforçar a convicção que o futuro e preservação da vida no continente africano não constituem uma preocupação para o neocolonialismo-imperialista. Seguindo esse roteiro ditado pelo imperialismo por intermédio da ONU foi chancelado em janeiro deste ano, um referendo para decisão de cisão territorial. Isso por sua vez atendeu uma reivindicação das potências imperialistas que se uniram em parceria USA, Grã-Bretanha e de Israel: a divisão do maior país africano em dois. Fazendo assim o cumprimento de mais uma etapa estratégia contida no famigerado Plano Yinon¹.

A sucessão do Sudão do Sul foi "aprovada" por 99% dos votantes da região. O índice foi classificado pelos porta-vozes do imperialismo como uma "vitória esmagadora". Apesar do número avassalador pelo sim não houve reação contrária ao resultado por parte da "comunidade internacional", diferente de outras ocasiões a onde o resultado das urnas não saiu perfeitamente como as mesmas potências imperialistas planejavam.

Os 99% de votos angariados pelos colonizadores a favor do "sim" foram objeto de vanglória. Nem mesmo sobre as acusações de proporção de mais de 100% de comparecimento às urnas (em algumas regiões o número de votos excedeu em centenas o número de eleitores registrados) foi suficiente para arrefecer o entusiasmo mal contido dos cabeças do projeto neocolonial na África com a separação do ''Sudão do Sul''.

Sudão do Sul reconhecimento diplomático é com direito a participação na ONU. O Brasil através do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota prestou apoio a mais "jovem" nação do mundo. Mais verdade sejam expostas há claridade esse Estado artificial do Sudão do Sul nasce para atender não as necessidades da população local, mais sim uma agenda de forças estrangeiras (imperialismo) interessantíssimas em pilhar as riqueza ali presentes em abundância reconhecidamente as jazidas de petróleo.

E como ficará as condições de vida do povo? O já sofrido povo sudanês será obrigado a sobreviver de forma paupérrima. Não irá usufruir das riquezas petrolíferas, não desfrutará de um regime representativo pois o fictício governo já se formou com um títere nas mãos das empresa multinacionais.

O povo sudanês será lançado a tudo isso somado com a ilusão de estarem organizados por uma falsa concepção de autodeterminação representada por uma inexistente independência de um governo, Estado, nação é país.

A formação de um Estado-nação constitui-se em um complexo processo histórico, de anos é anos que envolvem séries de lutas que se entrelaçam em diversos âmbitos: econômico, político, social é militar. Os desdobramentos desse conjunto de lutas acaba por definir a constituição ou não de um Estado-nação, que garanta uma legitima soberania de destino a uma população.


Autodeterminação!

O princípio da autodeterminação está ratificado em belas palavras na Declaração das Nações Unidas. Mas nada que ultrapasse o campo das palavras.

Autodeterminação e incompatível com imperialismo! Sendo a ONU um balcão a onde as nações imperialistas fazem seus objetivos se passarem por interesses de ''senso-comuns''. Ao invés da direta dominação, ocorre a substituição por uma modalidade de continuação de domínio de forma mesmo acintosa porém não menos perniciosa. Esse novo formato de dominação é o neocolonialismo que foi definido pelo líder revolucionário Kwame Nkrumah como sendo a fase superior e final do imperialismo. Pelo julgamento das nações imperialistas que cometem neocolonialismo as genuínas lutas de libertação dos povos não são reconhecidas, ou quando são reconhecidas sofrem as mais violentas intervenções por meio de guerras de repressão. Exemplo de lutas de libertação: Povo Ogoni.

Os Ogonis habitam a região do delta do Rio Níger. A região do Rio Níger possui uma grande atividade de exploração de petróleo. Os Ogonis desde a independência formal da Nigéria são relegados a uma posição marginal pelas principais etnias que compartilham o poder do Estado Nigeriano, os Haúças, Fulanis e Yourubas.

Sobrecarregados pela situação de opressão os Ogonis decidem se organizar através de um movimento para resistirem em 1993 pela liderança do escritor Ken Saro-Wiwa, foi criado o Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni. O movimento por sua vez rejeita a luta armada e se baseia na defesa da não-violência. Além de lutar pela preservação do povo Ogoni o movimento realizou uma vigorosa campanha de denúncia sobre a poluição causada a natureza pela empresa transnacional Royal Dutch Shell, responsável por boa parte da extração de petróleo Nigeriano.

Como forma de manter o privilégio a Shell forneceu apoio a ditadura do general Sani Abacha que investia com violência contra o Povo Ogoni. No ano de 1995 Ken Saro-Wiwa é outros 8 ativistas do Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni, foram presos e sentenciados á morte pela ditadura militar. O julgamento se configurou em uma completa farsa jurídica, apesar da mobilização de solidariedade internacional, Saro-Wiwa e seus companheiros foram enforcados tudo com a plena cumplicidade da Shell.

Para não ficar com a imagem publicitária negativa junto aos consumidores há Shell aceitou ''indenizar'' os familiares de Ken Saro-Wiwa e seus camaradas mortos por uma quantia pífia de US$ 15 milhões valor esse minúsculo em comparação aos lucros de bilhões de dólares que essa multinacional parasitária pilhou é continua a pilhar no solo a onde os Ogonis vivem, sem contar que isso não cobre nem um terço dos terríveis danos causados ao meio ambiente em decorrência da saque feito sobre as reservas de petrolíferas.

Então como autodeterminação deve se entender algo construído e mantido pela perseverança de um povo. Não como algo concedido por seus exploradores é opressores. Autodeterminação e um processo consciente, fruto da luta de milhares de pessoas que unidos em uma inquebrantável união que tem como objetivo final a liberdade de decisão de escolha e condução de vida.

O atual mundo não e um lugar livre, por mais que se fazem nós crer os apologistas da pós-modernidade. Ainda a uma divisão no planeta em dois campos! De um lado um pequeno conjunto de nações "desenvolvidas" que compõem o campo do imperialismo da exploração transnacional, que recorrem ao belicismo para garantir sua gama de benefícios, de outro lado está o campo dos países em situação de colonialidade e semi- colonialidade que tem suas populações esmagadas sobre uma estrutura de poder e produção escravizante que petrificam a pobreza e miséria.

A existência do primeiro campo somente e garantida pela perpetuação do segundo campo. E exatamente esse segundo campo que se concentram as mais ativas e titânicas forças revolucionárias populares. Nós estamos a viver no segundo campo, então devemos ser soldados pela vitória do segundo campo. Internacionalizar nossa solidariedade sobre toda e qualquer forma para com combatentes de todos os países.

Plano Yinon¹: assim chamado o projeto formulado inicialmente por Israel em com recebeu apoio de adesão do imperialismo britânico ianque. O estratagema desse plano de repartilha e realizar uma reformulação no mapa geopolítico do Oriente Médio E no norte da África. Enfraquecer, desestabilizar governos considerados hostis, e possibilitar uma facilidade emmanobras de ações diplomáticas e militares. O objetivo final do plano e dar a supremacia de poderio a Israel.


Kassan 19/07/2011


Encontrei minhas origens

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

(Oliveira Silveira)

Kassan. 16/07/2011

Excelente documentário. Confiram muito bom.












Kassan 14/07/2011

Caixa Econômica é acusada de racismo

Uma funcionária terceirizada da Caixa Econômica Federal foi agredida verbalmente ao tentar fazer a organização do atendimento bancário da agência de Pirassununga, em São Paulo.

De acordo com os autos do processo, quando ela solicitou que os clientes respeitassem a ordem das senhas, ouviu a seguinte resposta: “nunca vi preto mandar”.

O fato ocorreu em 2002 e a CEF foi acionada por ter sido, em tese, solidária com o ato racista, pois demitiu a trabalhadora após pedido da cliente responsável pelo ato.

Em troca da conta de 30 mil reais da cliente, a CEF resolveu demitir a funcionária terceirizada, segundo os relatos do processo.

A prestadora de serviços afirma que a organização fora tão racista quanto a cliente ao romper a relação de emprego. Legalmente, a Lei n 7.716/1989 e a Constituição Federal tratam atitudes racistas como crime, prevendo, para tanto, uma pena de 2 a 5 anos de reclusão.

A ex-empregada afirma que é um absurdo a CEF demitir alguém que não aceitou ser tratado de modo pejorativo em razão de sua cor. O relator do processo, Sidnei Beneti, disse que “embora a pretendida indenização não decorra de ato ilícito praticado por empregado da Caixa, mas por uma cliente da instituição, no momento em que a autora sofreu a ofensa ela se encontrava prestando serviços na dependência da agência”.

Por seu turno, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), firmou entendimento de que é competência da Justiça do Trabalho processar e julgar ação de indenização na qual tanto a Caixa Econômica Federal (CEF) quanto uma cliente da instituição são acusadas de praticar racismo contra uma funcionária do banco.

Bancos racistas

Recente levantamento, chamado Mapa da Diversidade, afirma que a discrepância da participação do negro no sistema bancário ainda é menor que nos demais ramos de trabalho.

No setor bancário os negros são apenas 19% do total. Além disso, somente 4,8% dos bancários que ocupam algum cargo de chefia são negros.

Segundo o economista Marcelo Paixão “o que acontece no setor bancário é que, em geral, os empregos são proporcionalmente mais bem prestigiados socialmente. Então, a presença negra lá acaba sendo inferior porque isso é o que ocorre na sociedade como um todo. Há maior probabilidade de uma pessoa negra trabalhar em funções menos prestigiadas ou com remunerações menores”.

Por outro lado, tendo em vista esse Mapa da Diversidade, os sindicatos promoveram atos nos estados com intuito de “combater o racismo” no setor, porém, tal medida foi apenas figurativa, com alguns panfletos distribuídos em alguns minutos, e nada mais foi feito.

Os negros são os terceirizados

Para a categoria dos terceirizados no sistema financeiro a situação trabalhista tende a se agravar vertiginosamente. Até porque esta tem sido a política dos bancos e de outras empresas estatais ou não, ou seja, a contratação de serviço terceirizado, que é mais barato para a empresa, tendo em vista o esfolamento da categoria terceirizada que fica sem receber salários por meses e são demitidos por qualquer motivo. Serviço este prestado em sua maioria esmagadora por negros.

Na ordem do dia, está em pauta uma das plataformas de luta que atinge diretamente a população negra, que é a incorporação à empresa de todo o trabalhador terceirizado, independente de concurso, especialmente porque são trabalhadores que conhecem o local de serviço e realizam o mesmo ou maiores serviços que os concursados realizam.

Notícia divulgada no Coletivo João Candido.

Kassan 07/07/2011


Ka `Ba


Uma janela fechada sobranceira
olha um pátio sujo, e os negros
a cruzar apelos, gritos, atravessam-no
desafiando a física com a torrente da sua vontade

O nosso mundo está cheio de som
O nosso mundo é mais belo que qualquer outro
embora soframos, e nos matemos uns aos outros
e às vezes nos falhe andar no ar

Somos gente bela
com imaginações africanas
cheios de máscaras, danças e cantos empolgantes
com olhos africanos, e narizes, e braços,
que se abrem com grilhões cinzentos num lugar
cheio de Invernos, e só queremos o sol.

Fomos capturados,
irmãos. E labutamos
para ser livres, para transformar
a imagem antiga, numa nova

correspondência conosco próprios
e com a nossa família negra. Precisamos de magia
precisamos agora dos sortilégios, para nos erguermos
regressar, destruir e criar. Qual será
a palavra sagrada?

Poema de Amiri Baraka



Kassan 06/07/2011


Um total de 1.918 documentos diplomáticos do USA revelados pela organização WikiLeaks mostram como a administração ianque e as transnacionais petrolíferas Exxon Mobil e Chevron manobraram agressivamente para sabotar um acordo firmado entre o Haiti, então sob a gerência de René Préval, e a Venezuela visando a integração do pequeno e pobre país insular na PetroCaribe, aliança do setor de energia firmada em 2005 entre a administração de Hugo Chávez e diversos países na América Central.

O caso revelado pelos documentos vazados pelo WikiLeaks remonta a maio de 2006, mais precisamente ao dia 14 daquele mês, data da posse de René Préval como "presidente" do Haiti. Ainda que Préval estivesse empenhado em bajular o USA, acenando com vantagens para as transnacionais ianques — chegando até a fazer uma visita "oficial" a Washington antes mesmo de tomar posse —, logo no dia em que assumiu o cargo assinou um acordo com o vice-presidente da Venezuela, José Vicente Rangel, para o Haiti ingressar na PetroCaribe.

Segundo os termos do acordo, o Haiti compraria petróleo da Venezuela pagando apenas 60% à vista e financiando o restante ao longo de 25 anos a módicos juros de 1%. Préval mal havia sido empossado e um petroleiro venezuelano já manobrava na baía de Porto Príncipe carregando cem mil barris de diesel combustível.

O ingresso do Haiti na PetroCaribe desagradou o USA, que queria garantir para seus monopólios o fornecimento de petróleo para o novo governo de Porto Príncipe.

A então embaixadora de Washington no Haiti nomeada por Bush, Janet Sanderson — que hoje é secretária de Estado adjunta da administração Obama — emitiu diversos despachos diplomáticos para o USA afirmando que a embaixada e as transnacionais estavam pressionando a gerência Préval no sentido de minar o acordo com a PetroCaribe, mas a própria embaixadora Sanderson reconhecia que as especificidades da realidade haitiana impunham dificuldades para que Préval abrisse mão da cooperação com a Venezuela, dada as imensas vantagens que Chávez oferecia em comparação com a dependência energética do Haiti em relação ao USA.

SEMICOLÔNIA HAITIANA SOB NOVA DIREÇÃO

Os monopólios ianques ficaram ainda mais possessos quando a gerência de René Préval anunciou que seria necessário reorganizar o mercado interno de combustíveis para garantir uma distribuição constante através da PetroCaribe. Na prática, isso significava que os monopólios ianques que operam com distribuição no Haiti teriam que passar a comprar combustível do governo de Porto Príncipe.

"Companhias petrolíferas internacionais estão cada vez mais preocupadas — tanto a Esso quanto a Texaco vão se reunir com a embaixada brevemente porque terão de comprar diretamente do governo do Haiti o petróleo delas", comunicava a embaixadora Janet Sanderson em um despacho diplomático datado de 17 de maio de 2006.

Outro despacho, este de 13 de outubro de 2006, informava a Washington que o diretor da Exxon no país, Christian Porter, "afirmou, em nome tanto da Exxon quanto da Chevron, que as duas companhias não estariam dispostas a comprar petróleo do governo haitiano já que elas perderiam suas margens de lucro e porque a PetroCaribe tem uma reputação pouco confiável [na pontualidade das entregas]".

Há ainda relatos de tentativas de sabotagem da entrada do Haiti na PetroCaribe mediante boicote a reuniões e sonegação de informações. Apesar da sabujice de Préval e de todo o esforço "diplomático" por parte da embaixada ianque em Porto Príncipe e das grandes transnacionais petrolíferas, o governo haitiano não abriu mão da adesão à PetroCaribe. Agora, o USA chancelou a condução do cantor Michel Martelly ao cargo de gerente do Haiti para os monopólios, esperando que a nova direção da semicolônia haitiana devolva às transnacionais ianques o controle absoluto sobre o mercado local de energia e combustíveis. A história toda foi garimpada dos arquivos do WikiLeaks pela organização Haïti Liberté e reproduzida pela revista estadunidense The Nation.

Matéria publica no jornal A Nova Democracia N°90

Kassan 05/07/2011